Rádio Metropolitana


terça-feira, 14 de abril de 2026

Retratos que transformam narrativas

 Retratos que transformam narrativas


Kica de Castro - Apresentadora do programa "Viver Eficiente"


Kica de Castro construiu uma trajetória em que técnica, sensibilidade e propósito caminham com precisão e raramente em silêncio. Nascida em São Caetano do Sul, no Grande ABC paulista, encontrou ainda na infância seu primeiro laboratório afetivo ao observar o pai, fotógrafo amador. Enquanto muitas crianças buscavam o protagonismo diante da câmera, Kica se interessava pelo que estava por trás dela: compreender o equipamento, dominar a luz, decifrar o gesto que antecede a imagem. Desde cedo, sua relação com a fotografia foi menos sobre aparecer e mais sobre revelar.
Formada em Comunicação Social, com ênfase em Publicidade e Propaganda, ampliou seu repertório visual e narrativo. Nas agências de comunicação, entre campanhas e estratégias, veio a constatação definitiva: sua linguagem mais potente era a fotografia. Em 2000, iniciou sua trajetória profissional registrando eventos sociais, especialmente casamentos, segmento no qual atua até hoje, liderando sua própria equipe com consistência estética e olhar apurado.
O ponto de inflexão veio em 2002. À frente do setor de fotografia voltado à reabilitação de pessoas com deficiência física, Kica encontrou não apenas um campo de atuação, mas uma causa. Permaneceu até 2007, quando decidiu avançar para um território inédito: fundou a primeira agência de modelos profissionais do Brasil com elenco integralmente formado por pessoas com deficiência. Mais do que uma iniciativa de mercado, foi uma ruptura simbólica. Uma nova forma de enxergar corpo, identidade e representação.
Esse movimento se consolidou como divisor de águas em sua vida e carreira. A partir dele, Kica de Castro conquistou notoriedade nacional e internacional, acumulando prêmios e reconhecimento por sua contribuição à fotografia e à inclusão. Em dezembro de 2025, recebeu o título de Comendadora, reconhecimento que reforça o impacto cultural e social de sua obra.
Sua assinatura estética recusa disfarces. Em suas imagens, aparelhos ortopédicos não são escondidos, tornam-se elementos de estilo e identidade. Para quem observa seu trabalho, esses dispositivos podem ser compreendidos como extensão do corpo, ferramenta de mobilidade ou expressão individual. A interpretação é livre. O que Kica propõe é um deslocamento de olhar: transformar o que antes era invisibilizado em linguagem estética legítima.
Em 2015, ampliou ainda mais o alcance de sua narrativa ao criar o programa de televisão “Viver Eficiente”, dedicado a dar voz e visibilidade às pessoas com deficiência. Atualmente, o programa integra a grade da Astral TV, com exibição de segunda a sexta-feira, às 15h30, e também do Alpha Channel TV, em Alphaville, onde vai ao ar semanalmente, consolidando-se como uma plataforma contínua de informação, representatividade e diálogo.
Seu lema: “beleza e deficiência não são palavras opostas”, atravessa editoriais, exposições e passarelas. Na exposição virtual mais recente, “O Corpo Dourado da Vitória”, corpos de pessoas com deficiência são pintados de dourado pelo maquiador André Lima, em uma construção visual potente que simboliza conquista, força e pertencimento. Não se trata de idealização, mas de reconhecimento: a beleza deixa de ser padrão e se afirma como plural.
Hoje, ainda que de forma gradual, a presença de pessoas com deficiência em campanhas, editoriais e produções audiovisuais já não é mais exceção. Há avanço consistente, ainda que tímido, Kica está entre os nomes que ajudaram a construir esse caminho ao longo de décadas de trabalho.
Para o final do ano, a fotógrafa se prepara para mais um capítulo: será coautora de um livro ao lado de outras 11 mulheres, compartilhando sua trajetória profissional. Um registro que ultrapassa a memória e se inscreve como legado. Em um mercado cada vez mais atento à relevância social e à autenticidade narrativa, o trabalho de Kica de Castro se destaca não apenas pela estética, mas pelo impacto que gera. Seu olhar não apenas enquadra, mas, reposiciona conceitos. E, ao fazer isso, transforma a fotografia em um instrumento ativo de inclusão, consciência e transformação social.

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